A pele da serpente


Para a Comunidade do TQR Brasil, 2025, o ano da serpente, foi um ano de transformação. Nós literalmente trocamos de pele renovando o site e a identidade visual, além de dar nascimento a um novo espaço: o Radicalmente Presente. No entanto, à alegria do novo somou-se a tristeza da perda. Nossa professora-raiz, Joanna Macy, nos colocou em roda para que sua amada comunidade pudesse se despedir. Mas, como a grande árvore que sempre foi, ela não deixou este mundo sem antes espalhar sementes: em 2025 aconteceu a estreia do primeiro Programa de Desenvolvimento de Facilitadores do TQR em português.
Compreender o processo de mudança revela a verdadeira metáfora do crescimento. As serpentes trocam de pele porque sua pele rígida e pouco elástica não se expande com o crescimento do corpo. A nova pele cresce sob a antiga, que ao se soltar do focinho, vai sendo removida quando a serpente se esfrega no chão. Crescer, para as serpentes, traz vulnerabilidade: a visão fica comprometida pelo acúmulo de fluidos entre as peles, aumentando o risco de predação. Para nós, este foi o aprendizado mais importante do ano: para expandir é preciso assumir alguns riscos.
Tocar a terra com todo o corpo

Neste ano, a Comunidade de Aprendizagem do TQR mergulhou no livro do sensei David Loy, o Ecodarma. Depois do Esperança Ativa, Nossa Vida como Gaia, World as Lover, World as Self e A Wild Love for the World, este foi o primeiro livro de outro professor que nós arriscamos a estudar. Foi um passo para fora do colo seguro de Joanna Macy que nos embalou nos últimos cinco anos.
Contemplar o Ecodarma nos desafiou a sustentar pensamentos complexos, digerir notícias avassaladoras sobre a Terra e a confiar na sabedoria ancestral dos bodisatvas. Um mantra deste livro nos guiou pelo percurso: "Não sabemos se o que fazemos é importante, mas sabemos que para nós é importante fazê-lo".
E o próprio sensei David Loy assumiu o risco de estar conosco para dizer que o seu livro precisava de atualização, contando sobre a diversidade de caminhos na filosofia budista e como diferentes tradições surgiram com atitudes distintas em relação ao mundo natural e aos nossos corpos. E para finalizar, o Sensei nos mostrou como o budismo pode transformar estes tempos sombrios, ao mesmo tempo em que é transformado por ele, trazendo um olhar surpreendente sobre o gesto de tocar a Terra que o Buda fez. Fomos lembradas que, assim como para as serpentes, precisamos tocar o chão para encontrar sabedoria.
Cobra-coral

Depois de duas edições em São Paulo, a terceira imersão do TQR que desenhamos aconteceu em maio, em outro território: a Paraíba. Para nós foi um passo fora do circuito convencional, já que boa parte da audiência do TQR se concentra no sudeste. Mas mesmo assim, 14 pessoas se uniram a nós em Pedras de Fogo para agradecer Joanna Macy bem no dia do seu aniversário de 96 anos.
E foi à beira de uma nascente, cheia de peles de cobras, que conduzimos uma Mandala da Verdade e que foi transformadora para muitos do grupo:
“O que foi mais especial. Entender o que está por trás dos sentimentos mais desafiadores, e a sua potência” - Amanda Crespo Forne
“É muito bom poder falar sobre aspectos tão profundos sem que isso pareça estranho e irreal” - Ygor Sarkis
Foram quatro dias intensos de práticas e de reconexão, de refeições fartas, riso solto e insights.:
“É incrível como práticas tão simples nos levam a lugares tão profundos!” - Claudia Mascarenhas
"Foi inquietante de uma forma positiva. Me colocou em perspectiva para trabalhar uma compreensão planetária de todos os seres que habitam a Terra” - Katarina Praxedes
“TQR para mim é sinônimo de girada de chave” - Laura Pimentel
Talvez seja este o principal objetivo da espiral: promover a Grande Virada de chave na nossa vida. E pra finalizar essa história, queria contar que um sinal auspicioso surgiu no último dia, o dia de ouvirmos sobre a Profecia do Guerreiro de Shambhala em volta da fogueira: uma pequena cobra-coral serpenteou por debaixo dos nossos pés, só pra lembrar que a nossa atenção precisa mesmo vir de baixo!
O abraço da terra
Nada nos preparou para a despedida mais difícil deste ano. Não importa que Joanna estivesse com seus 96 anos, o brilho nos olhos que ela transmitiu em suas últimas palestras emergia de um ser infinito de amor. E quanto amor ela fez brotar ao longo dos 36 dias que se seguiram, desde a queda que ela sofreu em casa até o seu último sopro.
Graças à generosidade de sua filha Peggy, toda a comunidade global do TQR acompanhou o processo de passagem de Joanna na plataforma CaringBridge. E nós aqui acompanhamos juntos também, dia após dia, traduzindo cada nova mensagem.
Em vários lugares do mundo, os facilitadores da rede, os alunos da Joanna e todos que se conectaram com ela de algum mundo, se reuniram para rezar, contar histórias sobre a professora, declamar poemas e canções, ou simplesmente agradecer de todo o coração, como fizemos aqui também.
Anne Symens-Bucher compartilhou conosco uma das últimas falas de Joanna. Anne a ouviu enquanto acompanhava Joanna no quarto de hospital, cuja janela era voltada para o estacionamento do hospital onde havia cinco árvores de diferentes alturas. Joanna disse: "Meu mundo é tão bonito! Eu amo meu mundo! Essas árvores são tão bonitas. Oh, meu Deus, olhe para elas. Elas são tão corajosas por serem quem são. São corajosas por crescerem onde o solo é difícil para árvores grandes."
Coragem é uma palavra que diz muito sobre quem foi Joanna Macy. Ela sempre nos lembrava da coragem para amar esse mundo ferido, da coragem que pode quebrar um coração, mas que pode, enfim, revelar todo o universo.
Foi muito transformador poder ficar com Joanna até o fim, até o derradeiro abraço da terra acolhendo o seu corpo. Mas ela não está lá. Como diz o trecho do poema de Wendell Berry: "Ela está escondida entre tudo o que é, e não pode se perder".
Círculos se ampliando
Enquanto eu escrevo esta newsletter, 29 pessoas se preparam para o último encontro de aprofundamento do Programa de Desenvolvimento de Facilitadores do TQR. Vamos receber o professor Virgílio Varela e não poderíamos estar mais ansiosas para acolher toda a profundidade de quem experimentou a espiral em muitos contextos diferentes.
O Programa se encerrará em junho de 2026. Neste momento, cada participante está sonhando e desenhando (alguns já estão oferecendo!) a sua própria oficina. Tem sido muito inspirador acompanharmos este processo juntos, nesta comunidade de facilitadores que está emergindo.
2026 - Ano do Cavalo de Fogo
Agora que a gente trocou de pele, alguns lugares por onde vamos andar já estão nos esperando. Mas tem muita coisa em aberto… Que o cavalo de fogo nos traga a energia, a paixão e o impulso dinâmico e aventureiro que ele carrega, para que as nossas intenções mais bonitas ganhem movimento.
Com carinho,
Bruna Buch

Sobre essa newsletter
Esse texto faz parte do Radicalmente Presente, que nós (Bruna e Lia) decidimos definir como “uma resposta ao som estranho do nosso mundo” (leia mais aqui em nosso manifesto). Nós escolhemos o email como canal para comunicar o que vier em nosso coração (e abdicamos com alívio do frenesi das redes sociais). Nossa intenção é trazer reflexões e histórias na intenção de nos ajudar a navegar com mais compreensão - ou seja, mais amor - em nosso mundo em transformação. Nosso ritmo vai ser gentil: dois emails por mês. Vem, que vai ser gostoso.
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