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Amor e teia em Sambaqui

Feb 02, 2026
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"O maior presente que você pode dar é estar absolutamente presente. E quando você está se preocupando se é esperançoso ou desesperançado, pessimista ou otimista, quem se importa? O principal é que você está comparecendo, que você está aqui, e que está encontrando cada vez mais capacidade de amar este mundo, porque ele não será curado sem isso. É isso que vai liberar nossa inteligência, nossa engenhosidade e nossa solidariedade para a cura do nosso mundo."

 

Joanna Macy

 

Não é fácil conectar sabedoria e amor. Parece que uma coisa vem da mente, outra do coração. Nos textos, a gente pode até encontrar explicações de como um é a face do outro. Nessa citação da Joanna, a partir de uma entrevista para o podcast On Being, ela faz esta conexão de forma simples: o amor libera a inteligência. 

Mas experienciar isso é outra coisa. E é isso que precisamos. 

 

Um convite irresistível

 

Nos primeiros dias de janeiro de 2026 Bruna Buch e eu nos encontramos fora de nossos territórios. Fomos convidadas por Andreas Hernandez, professor doutor de Sustentabilidade na Universidade do Novo México (EUA) para participar do “Simpósio Contemplativo em Ecodarma”, com a participação especialíssima do Roshi David Loy, autor do livro Ecodarma: ensinamentos budistas para a urgência ecológica (Bambual) que estudamos em grupo ao longo de 2026 na CA-TQR. O evento não era aberto. Andreas convidou diretamente pessoas – do Brasil e dos EUA – que estivessem de algum modo envolvidas com o tema do budismo engajado e da discussão do que este campo pode oferecer ao nosso mundo neste momento de poli-crise.

Bruna e eu ficamos super honradas com o convite e vimos uma vantagem a mais em participar: era a oportunidade também de nos encontrarmos presencialmente e cultivarmos um tempo de qualidade juntas. Conversar sem pressa – e muitas vezes no banho de mar – sobre os muitos projetos que temos para este ano com o Radicalmente Presente. Um deles, aliás, já está quase começando e cuja inscrição já está aberta: o grupo de estudo do maravilhoso livro do Andreas Weber, Matéria e Desejo: por uma ecologia erótica.


O simpósio

 

O simpósio durou seis dias e aconteceu em Florianópolis, em uma casa em Sambaqui, um local imerso em biodiversidade e a poucos passos do mar. Sambaqui, talvez você já saiba, é uma palavra tupi-guarani que significa “monte de conchas” e se refere a um tipo de construção indígena que data de 8 mil a 2 mil antes do presente. Os estudos apontam que os sambaquis eram usados como santuários, local para enterrar os mortos ou mesmo como moradia e Santa Catarina é o estado brasileiro com maior número de sítios arqueológicos que mostram essas impressionantes construções feitas de conchas de moluscos, restos de animais marinhos, areia, terra e cinzas de fogueiras. No próprio bairro onde estávamos (e na verdade em toda Florianópolis) há diversos resquícios arqueológicos de sambaquis que hoje revelam muito sobre o saber-fazer dos povos antigos. 

Nossos anfitriões – Emily e Ethon – foram generosos o suficiente para acolher 20 pessoas, servindo as mais deliciosas refeições e criando o contêiner perfeito para as discussões e práticas que fizemos. 

O formato do Simpósio foi inovador, pelo menos para mim e para Bruna. Ao invés de ouvirmos o Roshi David, que enfim tem dedicado uma vida à esse tipo de discussão, e a partir daí discutirmos aplicações práticas, nossos dias juntos foram muito mais voltados para a inteligência coletiva. Andreas desde o começo nos convidou a expor nossas próprias reflexões, trazendo questões que gostaríamos de ver discutidas, seja no grande grupo ou em grupos focais menores.

Ele também convidou diferentes pessoas do grupo para conduzirem vivências. Bruna, Polliana Zocche (que também estava lá) e eu conduzimos uma prática do Trabalho Que Reconecta (e foi bem emocionante!). Fomos conduzidos em uma inesquecível prática de contato com o mundo não humano, por Will Adams, professor doutor em Ecopsicologia e um dos mais adoráveis integrantes do nosso pequeno grupo. Daniella Willhems e Sarah Giffin nos conduziram em divertidas e profundas práticas com o Koan Theater (Teatro Koan). 

 

O momento “palestra do Roshi David” aconteceu pouquíssimas vezes nos seis dias de simpósio. Mas em sua última fala, o Roshi compartilhou reflexões recentes sobre o tema da mecânica quântica e sua relação com a Rede de Indra. Eu sei, parece bem chato, mas eu garanto a você que não foi. A Rede de Indra (também conhecida como Joias de Indra ou Pérolas de Indra) é uma metáfora usada para ilustrar os conceitos de vacuidade (Shunyata), originação dependente (Pratitya samutpada), e interpenetração nas filosofias hinduísta e budista. Roshi mostrou como as duas visões apontam para o mesmo ponto fundamental que pode ser resumido pela ideia de que “nós somos relações” – e não o eu independente, permanente, singular que usualmente achamos que somos. 

 

Voltando ao amor

 

Enquanto o Roshi falava tão articuladamente e da maneira mais didática possível sobre essa visão, eu não conseguia parar de pensar no amor. Pensava da definição de bodhichitta que a Lama Elizabeth Mattis Namgyel oferece:

“Bodhichitta é uma palavra sânscrita: bodhi significa “desperto/a” e chitta se refere tanto a “mente” quanto a “coração”. Em outras palavras, o termo sânscrito chitta não separa a resposta que vem do coração da clareza que vem do discernimento do insight. Quando alguém vê a natureza da interdependência de forma clara, naturalmente responde ao mundo com ternura e cuidado, sabendo que porque tudo se apoia, tudo que nós fazemos importa.”

Ou seja, amor e sabedoria são um só. O motivo de enfatizarmos muito mais o aspecto de sabedoria está ligado à era de racionalização extrema que herdamos – uma herança do patriarcado que separa mente do coração, reduz o mundo a dados e relações a equações frias. Nessa lógica, onde o "eu" isolado domina e a interdependência vira uma mera abstração. E essa nossa mente habitual, que adora pensamentos e conceitos, pode ficar dando voltas infinitas, sofisticando o discurso, sem necessariamente trazer essa compreensão para a experiência, para o corpo, para o chão. É assim também que o amor fica órfão de visão clara, virando uma emoção passageira ou simplesmente idealismo ingênuo. Acho que para nos livrarmos dessa armadilha, precisamos sim resgatar a sabedoria como âncora, mas perder a timidez de proclamar o amor em alto e bom som. 

Logo depois do evento, quando ainda estava queimando por dentro com todas essas reflexões, li o Tsoknyi Rinpoche, no livro Coração aberto, mente aberta, confessar que se arrepende de ter demorado tanto tempo para ensinar sobre amor: ele viu, ao longo de décadas guiando alunos, que a sabedoria sem amor é estéril, e o amor sem sabedoria é frágil. 

Estar juntos aqueles dias em Sambaqui foi sem dúvida uma prática de amor. E uma que certamente nos reforçou a motivação de que possamos, prática após prática, aprender mais sobre esse amor lúcido e colocá-lo em ação – dia após dia, onde quer que estejamos.

Com carinho e amor, 

Lia Beltrão



Sobre essa newsletter


Esse texto faz parte do Radicalmente Presente, que nós (Bruna e Lia) decidimos definir como “uma resposta ao som estranho do nosso mundo” (leia mais aqui em nosso manifesto). Nós escolhemos o email como canal para comunicar o que vier em nosso coração (e abdicamos com alívio do frenesi das redes sociais). Nossa intenção é trazer reflexões e histórias na intenção de nos ajudar a navegar com mais compreensão - ou seja, mais amor - em nosso mundo em transformação. Nosso ritmo vai ser gentil: dois emails por mês. Vem, que vai ser gostoso. 

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