Uma história de amor, um caso erótico


Eu adoro o Ethan Hawke. Não apenas porque ele é gatíssimo e um ator incrível, mas pelo modo como ele tem conseguido trazer para o “reino dos deuses e semi-deuses” do tapete vermelho de Hollywood uma visão profunda da vida e do que é estar vivo neste mundo. E quando ele fala — seja de morte, de fé, do sofrimento do nosso mundo — dá para sentir que é de um lugar de contemplação genuína. A minha aposta é que Ethan é um verdadeiro praticante espiritual.
Por isso não me surpreendeu quando me deparei com este vídeo recente, com uma resposta dele à pergunta: “Você tem algum conselho para quem tem que lidar com um amor não correspondido em sua vida?” E olha o que ele respondeu:
“Aquele que está amando sempre ganha. Não importa se seu coração se quebrar. Você está vivendo quando você está se sentindo vivo. O sol não se importa se a grama está apreciando seus raios, não é? Ele apenas continua a brilhar. Você é assim.”

Na hora que ouvi isso, pensei: ECOLOGIA ERÓTICA! Minha mente ainda estava um tanto imersa no estudo do livro “Matéria e Desejo” que tínhamos conduzido Bruna Buch e eu na comunidade (CA-TQR) na noite anterior. No prelúdio do livro, onde ainda estamos, Andreas Weber apresenta o que vai vir nas próximas páginas falando longa e lindamente sobre o amor, alertando sobre quão pouco entendemos sobre sua natureza e como amamos de forma incorreta.
“Mas será possível amar “corretamente”? A resposta que este livro tenta oferecer é a seguinte: para compreender o amor, precisamos compreender a vida. Para sermos capazes de amar, como seres com corpos sensíveis, precisamos ser capazes de estar vivos. Permitir-se estar plenamente vivo é ser amado. Permitir-se estar plenamente vivo é amar a si mesmo — e, ao mesmo tempo, amar o mundo criativo, que é fundamental e profundamente vivo. Essa é a tese fundamental da ecologia erótica.”
E foi isso que o Hawke respondeu: amar é sentir que você está vivendo. E a maior descoberta que podemos fazer — agora voltando para Weber, com sua biologia do amor — é que todos os seres e os elementos que os compõem podem ser o portal para praticarmos esse amor vivificado.
Mas temos que praticá-lo. E esta é a grande vantagem de estar em comunidade. Podemos nos propor exercícios de contemplação que nos façam não só ler essas palavras bonitas mas de fato incorporá-las. Fazer isso sozinho é possível? Claro que sim. Mas, para a maioria de nós, é mais difícil e menos divertido.
Um mosaico de histórias de amor
Com isso em mente, Bruna e eu sugerimos um exercício para a comunidade: buscar “histórias de amor” com ou sobre seres-mais-que-humanos. Weber descreve o livro como “uma série de histórias de amor”, na qual estão descritos e analisados “casos eróticos com pedras, plantas, rios, animais, pessoas e palavras”. E a nossa pergunta para o círculo que é a comunidade foi: qual a sua história de amor, o seu caso erótico?
Pelo poder de Eros, as histórias começaram a aparecer lá no fórum da nossa plataforma virtual. Um mosaico de relatos que nos lembra que o erótico pulsa em toda a teia da vida.

No chamado do manacá sedento: "E foi então que, com todas as 'letras', em uma linguagem que não é humana, ele me disse: 'Hei! Por onde você anda? Nós precisamos de você!' - encontro, êxtase, puro amor!"
No choro pela touceira de Guaimbê que seria perdida e na decisão de resgatar mudas com facão e pá: "Plantei essas mudas novamente em uma parte do terreno que não fazia parte da negociação, e pra minha felicidade anos depois já existe quase uma nova touceira de Guaimbê pra que eu possa seguir admirando e me confortando das minhas lembranças de infância cercada por mais mato do que por gente."
Na celebração de uma pedra como corpo vivo da Terra, desafiando biólogos: "O que existe entre eu e essa pedra? Nós. [...] Tudo que existe aqui é um só, inclusive o espaço entre as coisas. Tudo que existe aqui é eu, é nós. Olha como a gente é bela."
Na homenagem ao cachorro Malhado, fiel companheiro de um pai idoso: "Um dia meu pai está fazendo fisioterapia, caminhando lentamente sem a bengala, e o Malhado ia e voltava ao lado dele, caminhando na mesma velocidade. [...] Quando meu pai partiu eu tive a oportunidade de passar uns meses na casa cuidando dele. Eu ia dormir e o Malhado continuava na sala até aproximadamente 1 hora da manhã, na mesma posição ao lado da poltrona e depois mantinha o ritual de ir pra porta do quarto que antes meu pai dormia."
No deleite com minhocas na composteira: "Frequentemente apelamos aos sacrifícios necessários da transição para um novo modo de vida, mas acho que a transição também precisa ser prazerosa."
Na noite de angústia global, acalentada pelo Irerê: "Essa espécie de marreca notívaga assobia assim quando está voando: i-re-rê, i-re-rê. [...] Senti permissão da própria teia da vida para apenas descansar."
Esses relatos, e tantos outros que vieram de pessoas da comunidade, tecem o Eros que nos vivifica — pedras, plantas, bichos, pássaros. Quando dedicamos nossa atenção à dança desses seres, desses “outros”, não escapamos de nos sentir vivos. Isso é amor. Agora, qual é a sua história de amor? Qual o caso erótico que te vivifica?
Se quiser, envia tua história pra gente no [email protected], que ler casos eróticos tá sendo nossa mais nova diversão.
Com carinho,
Lia Beltrão
Grupo de Estudo do "Matéria & Desejo", de Andreas Weber
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De 18 a 21 de abril, na Fazenda Serrinha, Bragança Paulista (SP).
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Esse texto faz parte do Radicalmente Presente, que nós (Bruna Buch e Lia Beltrão) decidimos definir como “uma resposta ao som estranho do nosso mundo” (leia mais aqui em nosso manifesto). Nós escolhemos o email como canal para comunicar o que vier em nosso coração (e abdicamos com alívio do frenesi das redes sociais). Nossa intenção é trazer reflexões e histórias na intenção de nos ajudar a navegar com mais compreensão - ou seja, mais amor - em nosso mundo em transformação. Nosso ritmo vai ser gentil: dois emails por mês. Vem, que vai ser gostoso.
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