O bolo do presidente

Como vamos atravessar o colapso? A que práticas ancestrais temos que recorrer para nos manter radicalmente presentes para o que está acontecendo? E que outras vamos precisar inventar, no território único da nossa própria dor?

Uma cena do filme “O bolo do presidente”, do diretor iraquiano Hasan Hadi, tem vindo à minha mente nesses últimos tempos, especialmente quando minha respiração fica curta diante das notícias. E como deve acontecer com você, as notícias que têm me chegado são densas: milhares de mortes devido ao colapso literal dos Himalayas, iminentes catástrofes que podem vir das AIs, as já confirmadas interferências estadunidenses à política brasileira, o absurdo de um candidato à presidência do país subir nas pesquisas no momento em que se torna centro de um gigantesco escândalo de corrupção.
Se abro espaço para as notícias locais, tenho que lidar com um potencial segundo turno para governador do meu estado, a Paraíba, entre dois candidatos “inescolhíveis” — para dizer o mínimo. De um lado, temos o atual governador Lucas Ribeiro (PP), representante de uma poderosa oligarquia política e que não parece ter escolhido um outro caminho: tem secretário indiciado em sua equipe, acusações de inchaço na folha de pagamento do governo e provável envolvimento em um caso de desvio de 10 milhões de um programa social para pessoas em situação de rua. O outro candidato é Cícero Lucena (MDB), que tem uma longa história de desvio de dinheiro público (ele chegou a ser preso em 2005) mas que atualmente deu um passo além e está — toda a cidade sabe — envolvido até o pescoço com facções criminosas em um esquema que acho que surpreenderia os melhores roteiristas de crime thriller. Cícero é alvo de um inquérito formal da Polícia Federal por ligação com facção criminosa. Um deles vai governar meu estado pelos próximos quatro anos — caso alguém não seja preso.
Sei que não sou a única a se sentir derrotada pelo futuro. Muitas mentes se sentem assim agora e muitas mais se sentiram desse modo no passado. E acho que o filme “O bolo do presidente” (2025/2026) tem algo a nos ensinar sobre isso.

O filme nos transporta para o Iraque dos anos noventa no qual vemos o brutal regime de Saddam Hussein através dos olhos de uma criança. Em meio às sanções impostas pelos Estados Unidos, Lamia, de 9 anos, é escolhida por seu professor para trazer para a escola um bolo para comemorar o aniversário de Hussein. A menina sabe que não entregar o bolo acarretaria graves consequências políticas e punições impostas pelo regime à ela e à sua família. Em uma atmosfera de medo, Lamia vai em busca de produtos como ovos, açúcar e farinha como se sua vida dependesse disso.
Lamia tem como companhia seu melhor amigo, Saeed. Foi a relação entre os dois que me chamou a atenção. As duas crianças têm uma brincadeira que se repete ao longo do filme: se olhar fixamente sem piscar. Eles vivem nos pântanos da Mesopotâmia, que são apresentados de forma espetacular no filme, e a primeira vez que aparecem fazendo a brincadeira é em um barco, flutuando na noite. Quando um pisca, eles riem, e um diz: “De novo”.

Vou me segurar para não dar spoiler do filme (porque vale muito a pena assistir!), mas o fato é que em um determinado momento os dois se encontram em uma situação de completo perigo, com um prédio a ponto de desabar sobre suas cabeças. Eles não podem fugir dali e o que decidem fazer é o mesmo: se olhar nos olhos, atravessar em companhia o que quer que seja.
Aquela cena, das duas crianças se oferecendo mutuamente segurança e conforto, me faz chorar só de lembrar. Porque essas crianças somos nós. Seres completamente vulneráveis, sujeitos à violências estruturais brutais, descobrindo uns com os outros como permanecer humanos, bons.

Não há nenhum analista sério que indique que viveremos tempos melhores nos próximos anos. Mesmo que Lula ganhe as eleições — e sim, temos que fazer tudo para garantir que isso aconteça! — sabemos que o prédio está desabando e não há retorno. O ponto é: como nos mantemos conectados com nossos valores mais profundos, não como indivíduos apenas mas como comunidade? Sozinhos não vamos conseguir atravessar.

Precisamos dos olhos dos outros sobre nós e precisamos oferecer nosso olhar. É assim que atravessamos o que está se dissolvendo. É assim que nos erguemos depois das ruínas.
Com carinho,
Lia Beltrão

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